terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

nk: "29.000 aC"

NK “29.000”

Europa gelada. São 29.000 anos passados. Vinha pela trilha na mata ora densa e úmida ora descampada e luminosa. Exausto de muitos dias de caminhada, caminhando em busca do encontro. Raios de sol apontaram um espaço luminoso. Passos acelerados e sem me incomodar com inúmeros cortes nas pernas e braços provenientes da mata mais cerrada, me aproximei e vi três humanos a beira do cristalino lago. Pequeno lago ladeado de areia branca. Elas me viram... Duas correram para a mata. Uma permaneceu e seu olhar assustado não evitou o encontro que Namna chama de “predestinado”.

Seu pequeno e escuro rosto emoldurado pelos vastos cabelos despenteados flagrava um sorriso malicioso. Ao mesmo tempo assustado. Era a senha!
Corri em sua direção. Estava nu e visivelmente excitado. Seu pequeno corpo, seios endurecidos, dentes a mostra... expressão selvagem... Senha confirmada. Correu para a margem oposta enquanto a perseguia. Tinha que possuí-la. A excitação dobrava-me a força e a velocidade. Ao alcança-la, indiferente as mordidas e unhadas, levei-a ao chão, fina areia branca e quente. Posse e entrega resumiam o encontro desejado e permitido de dois corpos vencidos pelo embate selvagem.

Assim Namna me atraiu para o inesquecível e longo encontro. A ausência de comunicação articulada era substituída pelos altos grunhidos e largas gesticulações. A posse física de Namna – não obstante aparente violência – demonstrava posse e...afeto. Amor?

Próximo a rústica moradia entalhada na natural saliência da imensa rocha (perfil de índio D.Juan?) ouvia-se durante longas horas da noite intenso embate. A sanha! Seguiu-se prolongado silêncio. A fogueira apagou. No abraço aguardávamos a luz da manhã.
Acordamos, assim, 29.000 anos após. Abraçados. Aconteceu...

05/11/2007
/a rev.23/04/2008

nk "assim sim"

“ASSIM SIM”
Namna presente

Nada, acredite, volta para `trás. Não há caminho senão para frente. Mesmo para o parador.
Tentei esperar...
Querendo ou não, tudo se movimenta. Calculei a marcha nos limites extremos. Uns vão devagar, outros nem tanto, e há os que avançam impetuosamente. Esperei...
Fui caminhante em todos os extremos. Gastei sola e coração. Desidratei pelos olhos. Compactei os ossos. Arrastado ou caminhando, cheguei. Uau!
Deixei no esquecimento (?) verdades alheias e muitas minhas.
E´verdade. Sou eu outro! Irias me reconhecer? Acho que não.
Talvez os caminhos não se encontrem.
Talvez eu não seja – como antes – nenhuma escolha destacada.
Com certeza estou fora da sintonia de muitos em outras direções.
E pergunto pq.não as´sim?
Sabe, quero dormir! Namna...


igorvonkorsch/rio/08/10/2007
/ab 14/02/09 ivkorsch@gmail.com

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


namna kalan: "aconteceu"

NK “aconteceu”

Após oito dias o Instituto Oswaldo Cruz não tinha nenhuma pista confiável. A virose que acometeu Namna lhes era absolutamente desconhecida. Nada igual pertencia à extensa experiência dos pesquisadores do Instituto.

Namna estava com peso reduzido a quase metade. Frágil, permanecia deitada, recusava alimentar-se e seu olhar sinalizava assustadora apatia. Tênue expectativa se resumia no resultado do exame de sangue enviado ao laboratório da Unicairo, em Cairo. Desespero, indefinição, desesperança...

Acredite, teve um desfecho inarrável. Aconteceu... Ganesha colocou suas delicadas mãos sob a cabeça de Namna, suas generosas orelhas cobriram o rosto definhado e pela tromba sugou de cada olho o mal que a acometia.

É assim que aconteceu! Foi atemporal. Juro. Tudo parou. Enxuguei meus olhos, aproximei-me do leito de Namna... inacreditável, Namna... refeita. Estava como antes. Bela. Belíssima. E sorria.

O primeiro raio de luz da manhã feliz iluminou seu rosto. Namna Kalan voltou!
Obrigado, Ganesha!



ivkorsch@gmail.com
05/11/2007

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

yèyé omo ejá


namna kalan: teu rosto

NK “teu rosto”

“Como é o rosto dela?” Se referia a Namna.
“Ah! O rosto é lindo. Namna é muito linda. Namna é...sentimento. Entendeu? Um lindo sentimento!”

A noite olho para o mar, sim, a Mãe é linda e sua beleza é, acredite, igualmente sentimento. E lindo.

Não tenho dúvida: amor é sentimento.


23/04/08 itacuruçá


namna kalan: foto


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

namna kalan: 1.850.000 aC e hoje

NK “1.850.000AC E HOJE”

Baku não existia. Arusha, avó de Namna, estava presente nos seus antepassados, os grandes tigres. Namna era projeto distante. Faz, acredite, um milhão e oitocentos e cinqüenta mil anos aC! Estes tigres não existem mais, o siberiano, maior depredador da região mais fria da atual tundra russa.
E foi assim, a tigreza jovem caiu na armadilha da sedução. Lutou. Foi brava. Valente. É como tinha que ser. Força era beleza, era fecundidade, era o desejo acumulado durante meses. O urro dela, o urro dele, sinalizou. Era a senha.
O embate se estendeu pelo dia inteiro. À noite, exaustos e saciados, dormiram aquecendo-se mutuamente. O embate foi como devia ser: felino... Sanha de respeito.
08/11/2007

A senha revela o encontro que Namna chama de “predestinado”. As naturais arestas individuais afloram, exigem que sejam abrandadas em busca do equilíbrio e convivência. O embate é a luta feroz que busca a derrota das indesejáveis diferenças. A sanha não evidencia o campeão, mas torna ambos vencedores. Nos trilhos da paz, constrói a vivência compartilhada do amor.
23/04/2008 itac.

Hoje (10/06/2008 ou 1.850.000aC) longe do espelho não me via. Estava diferente, sim. Mutação progressiva, lenta, imperceptível, inicialmente. Envolvido em névoa azulada, vivenciava uma “inteligência superior” em mim, nunca antes percebida. Esta “inteligência” monitorava a mutação. Percebi alteração do “sentir”. A “inteligência” cedia espaço a um sentir original, algo em mim tinha uma excitante certeza: estar intensamente vivo. Apenas sabia que era eu inteiro e verdadeiro. Não havia tensão, ao contrário, um comportamento lúdico, leve, amoroso, com sutil prazer.
Somente percebi minha aparência – pêlo rajado, peso, presas, quatro patas no chão – quando encostei-me na tigresa, quente, lânguida, olhar felino de desejo e sorriso de encontro.
Tempo não existia, também não importava. O frio do tempo, este sim, era real, neve espessa, branca, crepitante. Não senti frio. Sentia extraordinária liberdade e sensação única em ser “eu”.
Ser “eu” novamente?!
Rolamos pela neve, pela encosta, em direção ao rio congelado. Nosso pêlo, olhos, brilhavam à luz do sol. Nosso cheiro embriagava...
Não lembro do retorno. Voltei com a certeza de que relutei em desejar retornar.
10/11/2008

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/ab

namna kalan: relatos

NK “relatos”

O cansaço dos muitos dias de mar não danificou o lindo jovem rosto quase negro de Namna. Seus olhos brilhavam. Lindas perolas negras. Namna veio de braços abertos para o nosso primeiro abraço. Conhecíamo-nos há pouco mais de quatro meses. Pela via virtual, a Internet. Nassaud e Bistrita - casal egípcio que a trouxe - atravessaram o hall da alfândega apressados, dando a entender que ali findava a missão de “entrega”. Namna, agora, era minha!

Namna crescia discretamente na pequena família sobrevivente da opressão econômica imposta pela China. Mas foi a sangria cultural que respondia por maiores baixas entre a população acuada, despida de seus valores históricos. Dakshin Kosala, distrito de Surguja, consta em pequenas letras no mapa da Índia Central. E´onde nasceu Namna.

199_ outubro. As comportas da gigantesca represa abertas criminosamente, tomaram rapidamente as ruas de Dakshin. Os pais de Namna desceram rapidamente da parte mais alta onde moravam em direção à escola na qual os irmãos de Namna estudavam. Nagasi de 5 e Donata de 4 não foram encontrados. Rakam e Dadra, os pais, nunca voltaram. Namna, da janela da pequena habitação começava a ver o mundo de modo desafiador e mau. E nunca mais ouviu seu próprio choro e soluços de dor e desamparo. Namna é surda!

Durante nossas muitas e longas conversas, Namna reconstruía sua história. Sua avó materna Arusha, emigrou aos 12 anos de Baku, Rússia, para Cairo, Egito. Fugia da ameaça do exército vermelho, cruzando Iran, Iraque, Jordânia e o Suez. O avô, Pavar, emigrou da devastadora seca de Tanzanía, Africa.

Vencer os desertos de Sudão, a temperatura de quase 50 graus, para um garoto debilitado pela fome, pelo cansaço, aos 15 anos, foi escola para tornar-se um forte e ter vencido até chegar ao Cairo. O encontro de Arusha e Pavar, para Namna, era simplesmente predestinado. Criaram filhos e netos na progressiva capital do Egito, então o modelo africano. Durante a crise do governo Nasser e o retorno rápido à pobreza dos imigrantes atingidos e acuados, um dos filhos, Rakam, emigrou para Chhattisgarh, Índia. Adaptou-se aos costumes locais tão diversos aos seus, absorveu rapidamente o idioma hindi, mas manteve discretamente sua fé e os preceitos cristãos, sem se indispor com o predominante hinduísmo. Dadra, a esposa, compartilhava da comunidade cristã da cidade, onde se conheceram. Namna foi a primogênita dos três filhos do casal.

Após a tragédia de 199_ Namna foi abrigada durante uma década na St.Xavier´s Public School de orientação católica. Aprendeu o idioma inglês e a língua de sinais, mas sem se esquecer da sua língua nativa, o chhattisgarhi. Os muitos relatos de Namna reproduziam a típica cultura local, eram flashes anacrônicos da tradição oral. Namna fala sem qualquer dificuldade. E em inglês.

A agressiva imposição do programa “Ghar Vapasi” (“volta para casa”) estabelecia a prática das “reconversões” de cristãos (“dalits”) como a família de Namna ao hinduismo. A direção católica cedeu às reais ameaças, abandonando sob expressivo protesto do Vaticano o estabelecimento de ensino. Namna foi imediatamente embarcada para Cairo aos cuidados de seus tios Ambad e Dahala. Isto em janeiro de 200_.

Acessar o programa da UNICEF “Open your heart to Índia” foi um descuido meu, um acidente de digitação e teclado. Buscava referencias “Ganesha”. O rosto de Namna
preencheu meu monitor de 17”. Foi o suficiente. O início da “importação” de Namna Kalan. O amor por Namna Kalan.
Ao chegar aqui em casa Namna trouxe paz e quietude. Além da agradável companhia, brilho e criatividade, abriu espaço para um projeto audacioso direcionado à comunidade de deficientes auditivos.

Tempo e ambientação de Namna permitem hoje diálogos mais íntimos e pessoais. Fala dos sonhos, dos medos, da expectativa em sua nova vida em nova e receptiva pátria.
Questionei sobre a sua surdez. Namna contesta veementemente “não sou surda!” Mas não se irrita com minha insistência no assunto. Afirma que apenas não quer ouvir gritos de dor, lamentações, negatividades. A voz do amor, diz “é interior”. Isto a faz feliz. E sábia. Os incríveis e oportunos acertos lhe são transmitidos por esta “voz interior”. E complementa, não necessita ser respondida, ou seja, falada. Deve, diz com absoluta certeza e autoridade que os atos de amor devem ser construídos, não falados. Lembra, com tristeza, que a decadência de Dakshin Kosala se atribui ao insano hábito indiano de falar, falar, sem tempo para as realizações concretas.
Namna afirma com todas as letras que ouve e ouve bem. E se mostra ansiosa para iniciar o projeto que leva seu
nome. PROJETO NAMNA KALAN.

2007
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