segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

namna kalan: relatos

NK “relatos”

O cansaço dos muitos dias de mar não danificou o lindo jovem rosto quase negro de Namna. Seus olhos brilhavam. Lindas perolas negras. Namna veio de braços abertos para o nosso primeiro abraço. Conhecíamo-nos há pouco mais de quatro meses. Pela via virtual, a Internet. Nassaud e Bistrita - casal egípcio que a trouxe - atravessaram o hall da alfândega apressados, dando a entender que ali findava a missão de “entrega”. Namna, agora, era minha!

Namna crescia discretamente na pequena família sobrevivente da opressão econômica imposta pela China. Mas foi a sangria cultural que respondia por maiores baixas entre a população acuada, despida de seus valores históricos. Dakshin Kosala, distrito de Surguja, consta em pequenas letras no mapa da Índia Central. E´onde nasceu Namna.

199_ outubro. As comportas da gigantesca represa abertas criminosamente, tomaram rapidamente as ruas de Dakshin. Os pais de Namna desceram rapidamente da parte mais alta onde moravam em direção à escola na qual os irmãos de Namna estudavam. Nagasi de 5 e Donata de 4 não foram encontrados. Rakam e Dadra, os pais, nunca voltaram. Namna, da janela da pequena habitação começava a ver o mundo de modo desafiador e mau. E nunca mais ouviu seu próprio choro e soluços de dor e desamparo. Namna é surda!

Durante nossas muitas e longas conversas, Namna reconstruía sua história. Sua avó materna Arusha, emigrou aos 12 anos de Baku, Rússia, para Cairo, Egito. Fugia da ameaça do exército vermelho, cruzando Iran, Iraque, Jordânia e o Suez. O avô, Pavar, emigrou da devastadora seca de Tanzanía, Africa.

Vencer os desertos de Sudão, a temperatura de quase 50 graus, para um garoto debilitado pela fome, pelo cansaço, aos 15 anos, foi escola para tornar-se um forte e ter vencido até chegar ao Cairo. O encontro de Arusha e Pavar, para Namna, era simplesmente predestinado. Criaram filhos e netos na progressiva capital do Egito, então o modelo africano. Durante a crise do governo Nasser e o retorno rápido à pobreza dos imigrantes atingidos e acuados, um dos filhos, Rakam, emigrou para Chhattisgarh, Índia. Adaptou-se aos costumes locais tão diversos aos seus, absorveu rapidamente o idioma hindi, mas manteve discretamente sua fé e os preceitos cristãos, sem se indispor com o predominante hinduísmo. Dadra, a esposa, compartilhava da comunidade cristã da cidade, onde se conheceram. Namna foi a primogênita dos três filhos do casal.

Após a tragédia de 199_ Namna foi abrigada durante uma década na St.Xavier´s Public School de orientação católica. Aprendeu o idioma inglês e a língua de sinais, mas sem se esquecer da sua língua nativa, o chhattisgarhi. Os muitos relatos de Namna reproduziam a típica cultura local, eram flashes anacrônicos da tradição oral. Namna fala sem qualquer dificuldade. E em inglês.

A agressiva imposição do programa “Ghar Vapasi” (“volta para casa”) estabelecia a prática das “reconversões” de cristãos (“dalits”) como a família de Namna ao hinduismo. A direção católica cedeu às reais ameaças, abandonando sob expressivo protesto do Vaticano o estabelecimento de ensino. Namna foi imediatamente embarcada para Cairo aos cuidados de seus tios Ambad e Dahala. Isto em janeiro de 200_.

Acessar o programa da UNICEF “Open your heart to Índia” foi um descuido meu, um acidente de digitação e teclado. Buscava referencias “Ganesha”. O rosto de Namna
preencheu meu monitor de 17”. Foi o suficiente. O início da “importação” de Namna Kalan. O amor por Namna Kalan.
Ao chegar aqui em casa Namna trouxe paz e quietude. Além da agradável companhia, brilho e criatividade, abriu espaço para um projeto audacioso direcionado à comunidade de deficientes auditivos.

Tempo e ambientação de Namna permitem hoje diálogos mais íntimos e pessoais. Fala dos sonhos, dos medos, da expectativa em sua nova vida em nova e receptiva pátria.
Questionei sobre a sua surdez. Namna contesta veementemente “não sou surda!” Mas não se irrita com minha insistência no assunto. Afirma que apenas não quer ouvir gritos de dor, lamentações, negatividades. A voz do amor, diz “é interior”. Isto a faz feliz. E sábia. Os incríveis e oportunos acertos lhe são transmitidos por esta “voz interior”. E complementa, não necessita ser respondida, ou seja, falada. Deve, diz com absoluta certeza e autoridade que os atos de amor devem ser construídos, não falados. Lembra, com tristeza, que a decadência de Dakshin Kosala se atribui ao insano hábito indiano de falar, falar, sem tempo para as realizações concretas.
Namna afirma com todas as letras que ouve e ouve bem. E se mostra ansiosa para iniciar o projeto que leva seu
nome. PROJETO NAMNA KALAN.

2007
sagank.blogspot.com

2 comentários:

  1. criação do "sagank.blogspot.com" em 02 de fevereiro, justa homenagem a "yèyé omo ejá", um blog com revelações e pensamentos surpreendentes de namna kalan, is sha allah!

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  2. Injcrível! Eu tento...mas nem sempre consigo ficar surda a certos impropérios.

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